Hoje eu trago um filme deveras obscuro, perturbador e subestimado que super passou desapercebido em sua época de estreia há exatamente dez anos sendo a primeira obra dirigida por Nicolas Pesce do execrável O Grito de 2020.
A trama ambientada em uma fazenda e gravada em preto e branco para conter os constantes momentos viscerais e para dar um ar mais sóbrio e dramático para a história nos apresenta à uma fazenda de agricultores portugueses que levam sua vida tranquila no campo até que uma desgraça muda a vida de todos para sempre.
A presença repentina de um maníaco se passando pro vendedor de porta em porta transforma o ponto de vista da filha única e inocente de um casal de imigrantes quando o mesmo assassina sua mãe a sangue frio e como se não bastasse, o pai da menina mergulha numa profunda depressão após surrar o invasor e enterrar a mulher.
A menina de forma fria acaba crescendo, mantendo o invasor como prisioneiro e usando dos dotes cirúrgicos herdados pela mãe, ela tortura, persegue e mata em nome da solidão e da tristeza, pois como sempre viveu isolada no campo nunca fez amigos e jamais foi preparada adequadamente para a vida adulta, o que faz com que seus sentimentos se confundam constantemente e sua noção de certo e errado acabe se distorcendo.
O filme abre no meio da estrada com uma mulher aparentando estar ferida e desorientada entrando no meio do caminho de um caminhoneiro que percebendo que a pessoa precisa de socorro para seu veículo e desce para socorre-la quando a estranha desmaia sob o asfalto.
A cena corta e entramos no prefácio da história que será narrada em três atos e somos introduzidos à uma fazenda gerida por um casal de imigrantes portugueses que tem uma filha pequena que aparenta ter pouco mais de dez anos chamada Francisca.
Entramos no ato 1 chamado "Mãe" onde conhecemos a mãe de Francisca que ensina a filha de forma natural como se deve abater e retirar os olhos de uma vaca decapitada, dando para a menina o interior do globo ocular do animal que é alvo e cristalino como uma pérola.
Um tempo depois, Francisca vai até a varanda da casa e senta-se sob a grama para esperar o pai voltar da cidade até que repentinamente, aparece um homem que se identifica como Charlie passando um ar que ao mesmo tempo reflete um semblante de gentileza mas ao mesmo tempo nos passa a impressão de que ele reprime desejos psicóticos, o que é detectado pelas desconfianças da mãe.
Charlie pede para entrar e falar com o homem da casa que não está e a mãe de Francisca diz não estar interessada em comprar nada pedindo que o rapaz vá embora e ele pede para usar o banheiro da casa momentaneamente e ele tira a máscara finalmente se revelando um maníaco armado com um revólver cujo cano é mirado para Francisca.
Com o total controle da situação, Charlie ordena que Francisca sente-se à mesa e foca sua atenção para a mãe.
A cena corta para instantes depois com a chegada do pai de Francisca ao lar e este encontra rapidamente Charlie espancando violentamente a mãe de Francisca que já estava completamente morta.
A cena corta novamente para instantes depois quando o pai de Francisca arrasta o corpo da esposa sobre uma lona até o descampado onde o esconde e depois vai ver televisão como se nada tivesse acontecido porém visivelmente abatido e fora do ar.
Com a chegada da noite, o pai pede para Francisca o ajudar a enterrar o corpo da mãe e os dois vão até o descampado e cavam uma cova para desovar a defunta.
Depois, pai e filha voltam a ver televisão novamente e enquanto Francisca sim0lesmente não chora e não questiona levando tudo fria e naturalmente, seu pai bebe para fugir da realidade e consegue pois simplesmente não reage à interação da filha.
Na manhã seguinte, Francisca colhe frutas e as leva até o celeiro onde descobrimos Charlie completamente espancando e acorrentado desde o dia interior e a menina costura os ferimentos do maníaco mostrando o talento herdado da mãe e questiona o prisioneiro o do por que ele escolheu sua mãe e ela e ele responde que foi por que elas abriram a porta e o deixaram entrar.
Francisca ainda pergunta o por que Charlie mata e ele responde que é pela sensação que é incrível. Em sua inocência e falta de discernimento, a menina diz que irá cuidar dele pois é o único amigo que lhe restou.
O que ela faz no entanto, é arrancar os olhos e a corda vocal do assassino, o costurar cirurgicamente para evitar sua morte além de vendar suas órbitas vazias e ela guarda os miúdos extraídos dentro da geladeira em saquinhos plásticos com a maior tranquilidade do mundo.
Francisca volta para dentro de casa e tenta fazer seu pai reagir mas ele ainda está aéreo pela carraspana mas assim mesmo ele resolve dormir e depois leva a filha para dormir com ele por segurança.
Na manhã seguinte, Francisca muda a dieta de Charlie fazendo um mingalzinho com carne moída de rato do mato que ela mesmo caça e mata e alimenta o prisioneiro. Depois, ela volta para casa e pede para o pai dançar com ela. Ele atende colocando um de seus discos de clássicos lusitanos nos envolvendo numa canção bela e triste ao mesmo tempo.
Entramos no ato 2 intitulado "Pai" que se passa anos depois. Francisca agora é uma bela jovem e ela cuida do pai que, bom... está morto e preservado sendo forçado a interagir como se ainda estivesse entre nós.
Agora Francisca é a total responsável pela fazenda e pelos afazeres domésticos levando uma rotina solitária e ela ainda toma conta de Charlie que está vivo e segue acorrentado desde então.
Francisca faz a refeição solitariamente e dá banho no pai momentos depois caindo na real de que ela está sozinha e coloca o defunto sobre a cama fechando seus olhos para que "durma".
No dia seguinte, Francisca toma o velho carro de seu pai que custa a pegar com seu motor que mais parece uma centrifuga e depois dirige até a cidade chegando à um bar no meio da noite onde conhece uma jovem chamada Kimiko para quem oferece uma carona.
Francisca a leva para casa e elas jogam conversa fora sobre a mãe da jovem portuguesa que ela diz sem o menor pudor que foi assassinada e que ela era uma cirurgiã no passado que lhe ensinou boa parte do que ela sabia.
Kimiko se compadece pela nova amiga a abraçando e Francisca interpreta o ato erroneamente desferindo um beijo nos lábios da oriental que se afasta e muda de assunto perguntando sobre o pai da portuguesa que responde estar morto.
Se sentindo desconfortável, Kimiko resolve sair da casa e enrola pedindo para usar o telefone, mas o aparelho não está funcionando e ela tenta evadir mas Francisca a impede.
A cena corta e vemos Francisca momentos depois limpando uma poça enorme de sangue no chão da cozinha deixando claro que ela assassinou Kimiko e depois ela guarda alguns saquinhos com carne na geladeira.
Depois, Francisca vai até o celeiro, retira a venda de Charlie revelando profundas cicatrizes, o liberta e o leva para cama onde tem relações com ele e depois dorme.
No meio da noite, Francisca acorda e se dá conta de que Charlie fugiu, porém ele não conseguiu ir muito longe pela cegueira e o alcança rapidamente desferindo várias facadas até ele morrer. Ela ainda diz friamente que ele tinha razão sobre a sensação de matar.
Mais tarde, Francisca põe um disco para tocar e dança para seu pai. Na cena seguinte, já de manhã, a jovem arranca o braço do pai para lhe tirar a aliança e coloca mais alguns saquinhos de carne dentro da geladeira. Na sequencia, ela leva o corpo do pai até o campo e o crema.
Francisca reage finalmente aceitando que está sozinha chorando pela primeira vez e ela amanhece no campo.
Depois de despertar, Francisca caminha pela estrada por um bom tempo até encontrar uma caminhonete que estaciona para lhe dar carona.
Entrando no ato 3 que se chama "Família", descobrimos que quem oferece carona para Francisca é uma mulher chamada Lucy que tem um bebê de poucos meses chamado Antônio.
Chegando à sua casa, Francisca se mostrando encantada com o menino, pede para Lucy deixa-a carrega-lo e mesmo com receio ela permite. Sem a menor cerimônia, Francisca abduz o menino e corre com ele para dentro de casa sendo seguida por Lucy.
Seguindo o choro de Antônio, Lucy chega até um dos quartos encontrando o bebê sobre a cama apenas como isca para uma cilada, pois Francisca surge por trás esfaqueando a mãe do menino nas costas.
Pouco tempo depois, Francisca usa do mesmo modus operandi que há anos trás com Charlie e retira os olhos e as cordas vocais de Lucy a acorrentando no celeiro.
Os anos se passam e Antônio é um menino de pouco mais de seis ou sete anos e cresceu acreditando que Francisca é sua mãe e proibido de entrar no celeiro.
Na mesma noite, movido pela curiosidade Antônio vai escondido até o celeiro e encontra Lucy que rasteja tentando encontrar o filho o fazendo se assustar e correr para debaixo das cobertas se auto afirmar de que foi tudo um sonho.
Na manhã seguinte, Francisca leva a comida para Lucy e Antônio pergunta quem está dentro do compartimento mas não recebe nenhuma resposta.
Mais tarde, Antônio pegas as chaves de Francisca escondido e vai até o celeiro libertando Lucy que se arrasta para a liberdade de forma lenta e dolorida.
Na manhã seguinte, Francisca acorda e aos gritos descobre que a prisioneira fugiu e a mesma vaga pela estrada até encontrar o caminhoneiro da introdução que a resgata tão logo ela desmaia sob o asfalto quente.
Anoitece e Francisca deixa Antônio na cama e vai até a cova da mãe desenterrando seus restos e a abraça aos prantos dizendo sentir saudade dela.
Não muito depois, Francisca vê luzes de viaturas se aproximarem de sua casa e corre até o quarto de Antônio o acordando e o protegendo com uma faca. Ela diz que independente do que acontecer ela o ama.
A residência é finalmente arrombada e ouve-se um tiro ser disparado. A cena final é um close aéreo da casa no maior silêncio enquanto descem os créditos ao som de uma triste melodia portuguesa...
O filme é verdadeiramente um show de sangue de forma sutil em forma de critica sobre as consequências de uma infância interrompida por uma tragédia e a falta de preparação para a vida, a falta de interação externa, da repressão e distorção de sentimentos que um trauma pode causar.
O ciclo poderia ter se repetido se Antônio não tivesse um coração bom e puro e se não tivesse tomado a iniciativa de romper as correntes da maldade incompreendida da suposta mãe.
A cinematografia em preto e branco agregou muito para a atmosfera sombria e triste da trama regado a falta de trilha sonora na maior parte da história o que valoriza os momentos de tensão com simplesmente o silêncio.
Falando em trilha sonora, as belas canções que embalam os poucos momentos ternos de Francisca são os fados clássicos "Naufrago" e Com que voz" interpretados pela cantora Amália Rodrigues (1920-1999) e outra poucas canções por fora como "Tumbling lights" da banda Acid e "The murder of the Lawson Family" de The Carolina Buddies, compostos por Ariel Loh.
O filme estreou no Festival de cinema de Sundace no início de 2016 e adquirido para transmissão para plataformas digitais no mesmo ano de forma deveras restrita o que acabou fazendo com que a obra não conseguisse se bancar tendo angariado apenas pouco mais de oitenta e quatro mil e quinhentos dólares de seus trezentos mil de orçamento, no entanto as críticos deram notas positivas na época, mas mesmo assim The eyes of my mother permanece no ostracismo sempre esperando algum fã do terror visceral o desenterrar do limbo.
Comigo mesmo a obra tem uma avaliação deveras positiva, foi uma ótima surpresa se tratando de um filme que tem como diretor o mesmo que em 2020 trouxe o reboot fracassado de O grito como eu já mencionei e isso me deixou com um pé atrás, mas felizmente para a primeira empreitada de Nicolas Pesce que também participou da edição do filme.
Trailer:

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