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sábado, 3 de outubro de 2026

A Cura / Cure / キュア (1997)

 

Seguindo a cota de filmes asiáticos de todo mês, hoje eu trago um clássico que há tempos eu venho tentando trazer mas que sempre acaba não dando certo, e agora sim o momento finalmente chegou.

Se trata de Cure de 1997, uma das crias mais viscerais de Kiyoshi Kurosawa (Pulse, Loft, Serpent's Path, entre outros) e também a mais complexa já que tem uma trama mais puxada para o lado psicológico.

Na história, temos um detetive a polícia que está investigando uma onda de assassinatos cujos executores não se lembram de tê-lo cometido e a única ligação entre eles é um homem misterioso com amnésia e muita astúcia para manipular o psicológico das pessoas.

A medida em que vítimas vão aparecendo, o misterioso amnésico vaga de hospital para delegacia, de delegacia para a casa de algum popular e daí para frente fomentando a dúvida sobre sua identidade e sua motivação.

O filme abre numa clínica psiquiátrica onde uma jovem paciente passa por uma consulta com seu terapeuta após ler um livro de contos intitulado "Barba azul" que termina com a morte do protagonista.

A cena corta para as entranhas de uma casa decadente onde um homem espanca uma mulher até a morte com um cano de ferro na cama dela.

O caso acaba caindo nas mãos de Kenichi Takabe, detetive da divisão de homicídios da policia que ao chegar ao local do crime encontra o corpo terrivelmente mutilado e um único cartão de identificação do assassino.

Na saída da residência, Takabe muito perspicaz encontra o assassino escondido dentro de um duto completamente nu e em estado de choque.

Na cena seguinte, Takabe analisa a gravação do interrogatório do assassino e descobrimos que outros assassinatos vem acontecendo naquela mesma cidade de forma misteriosa e sem conexão aparente entre cada caso.

A cena corta para a praia onde um andarilho é encontrado aparentando confusão que aborda um rapaz chamado Tôru Hanaoka lhe perguntando a direção da praia, se ele o conhece e volta e meia vive repetindo uma mesma pergunta e revela por fim estar sofrendo de perda de memória.

O misterioso andarilho desaba sobre Tôru que o leva para casa onde vive com sua esposa Tomoko.

Ao analisar as coisas do estranho, Tôru descobre que o andarilho se chama Mamiya por conta de seu sobrenome no casaco e depois tenta fazer o rapaz reagir e se esforçar para se lembrar de qualquer coisa que o ajude a encontrar o caminho de casa.

Mamiya no entanto pede para Tôru falar sobre ele e descobrimos que o bem feitor é professor de ensino fundamental. Depois, o andarilho pede que fale sobre Tomoko dizendo tê-la reconhecido por conta de um roupão cor-de-rosa.

Em paralelo, Takabe segue suas investigações até voltar para casa onde toma uma cerveja com sua mulher Fumie que é nada menos que a jovem da cena inicial e o motivo dela frequentar terapia é que ela não está nada bem da cabeça, o que faz com que a relação dos dois esteja esfriando aos poucos.

Mesmo com um notório afastamento, Takabe conta para Fumie como foi seu dia e menciona seus planos de tirar umas férias e viajar com a mulher assim que fechar o caso que está investigando.

Na casa de Tôru, estranhamente o professor tenta cometer suicídio se jogando da janela enquanto do lado de dentro da residência vemos rastro de sangue na cama do casal indicando que um crime hediondo acabara de acontecer.

Takabe é notificado sobre o assassinato de Tomoko pelas mãos de Tôru que sobreviveu mas está em choque e alega que o demônio o obrigou a matar sua mulher. O detetive vai até o hospital visitar Tôru e o professor apresenta confusão mental e depois tem uma crise de choro e histeria ao cair a ficha sobre o que ele fez e nisso ele tenta se agredir.

Cada vez mais aprofundado nos casos de homicídio, Takabe tenta buscar alguma resposta com seu amigo Sakuma que é psiquiatra à serviço da polícia e que está à cargo da internação de Tôru e outros assassinos e o profissional diz ao detetive para ele não se envolver demais com os casos pois está se sobrecarregando.

Neste momento, uma pessoa em choque em cima de um terraço silenciosamente se posiciona para se jogar e um policial aparece ordenando que ele fique parado para que ele possa chegar até o popular, mas o suicídio é imediato.

Anoitece e Mamiya é encontrado por uma dupla de policiais chamados Oita e Tamura e o amnésico segue o mesmo modus operandi fazendo perguntas na tentativa de se encontrar deixando claro que sua memória vive resetando e por isso ele se quer sabe como chegou à delegacia.

Mamiya acaba ficando à sós com Oita e pede que o policial fale um pouco de si para ele.

Na manhã seguinte, Mamiya passa por um checkup pelas mãos da doutora Akiko Miyajima enquanto Takabe procura Sakuma para falar sobre sua teoria dos assassinatos em massa terem sido motivados por algum tipo de hipnose, o que é negado categoricamente.

Em paralelo, na saída da delegacia, o policial Oita do nada executa seu parceiro Tamura com um tiro.

Fumie enquanto isso, volta ao consultório de seu terapeuta para mais uma sessão.

No consultório da doutora Akiko, Mamiya termina seu checkup e diz para a profissional que pode ver o que existe dentro das pessoas e que ele percebeu que a médica tem um vazio existencial. Ele pede para Akiko falar um pouco sobre ela e descobre que a médica tem complexo de inferioridade por ser uma mulher dentre vários profissionais super valorizados por serem homens, além do fato de que ela tem uma certa tendência à psicopatia e que suas boas médias na faculdade a afastaram de um mundo de crimes acabando por se tornar cirurgiã geral. Após a conversa, Mamiya foge do hospital.

Mais tarde, Takabe interroga o policial Oita, agora internado no hospital psiquiátrico de Sakuma, e o policial diz ter matado estimulado pela ira e menciona que esteve com outra pessoa antes do ocorrido mas que não se lembra quem era o tal.

Takabe insiste com Sakuma sobre sua teoria da hipnose em massa mas o psiquiatra acha prematuro cravar com certeza sem ter provas contundentes (homem da ciência, né?).

Neste momento, a doutora Akiko é encontrada no banheiro do hospital esfolando a face de alguém que ela acabara de assassinar friamente.

Rapidamente, Takabe recebe o chamado do hospital sobre um paciente com amnésia mas ao chegar lá, Mamiya já havia fugido.

O detetive faz um pente fino e encontra Mamiya no breu da lavanderia e o amnésico tenta fazer Takabe falar um pouco sobre si, mas não consegue qualquer informação sendo detido e levado para interrogatório.

Takabe mostra para Mamiya fotos dos homicidas que ele criou e uma foto dele mesmo para reconhecimento, mas o manipulador segue com sua tentativa de ganhar o detetive, mas é infrutífera e só faz Takabe ter um ataque precisando ser contido por Sakuma e é dispensado e aconselhado a ir para casa descansar.

Anoitecendo, Takabe busca Fumie na rua após ela se perder quando fazia compras e o casal repensa sobre a viagem de férias, pois definitivamente a mulher não está bem.

No dia seguinte, Mamiya é submetido a uma acareação onde se constata uma cicatriz de queimadura em suas costas.

Enquanto isso, Takabe sai para investigar um barraco decadente onde Mamiya estava vivendo e descobre uma vasta coleção de livros de psicologia e uma ficha da universidade de medicina onde se constata um quadro de depressão e mesmerismo.

Na sequencia, Takabe vai até o banheiro onde encontra um corpo de macaco retorcido e aparentemente drenado.

Takabe repassa para Sakuma a ficha de Mamiya com as informações que ele acareou com o que encontrou pela casa: Mamiya se chama Kunihiko e há três anos ele largou a universidade de psicologia e foi morar no galpão de um ferro velho onde ele também trabalhava e onde possivelmente ele adquiriu a queimadura. Mamiya está há exatamente seis meses dado como desaparecido.

O detetive pergunta ao amigo sobre o que seria Mesmer e Sakuma resume que se trata de uma prática terapêutica antiga através do magnetismo animal, ou através de um fluído animal. A pratica era para uma espécie de cura através do toque e da energia e que a teoria ajudou foi a porta de entrada para a prática da hipnose.

Takabe tem um estalo ao se lembrar do corpo do macaco e volta para casa às pressas onde encontra Fumie morta enforcada, mas depois de um surto ele percebe que só teve uma alucinação e que a mulher está viva.

Depois de se recompor, Takabe vai até a cela do hospital psiquiátrico onde Mamiya está detido e pergunta sobre o tal Mesmer mas o desmemoriado diz saber que o detetive alucinou com o suicídio de Fumie e que sabe também que a mulher está muito doente.

Takabe tenta obrigar Mamiya a reconhecer que ele hipnotizou suas vítimas, mas acaba caindo na manipulação revelando sua frustração na doença de Fumie e a sobrecarga de trabalho que ele é obrigado a se submeter para não ver a mulher se degradando além dele não saber como lidar com a condição de Fumie.

De repente, caem gotículas de um vazamento do teto e Mamiya diz que esta água acalmará Takabe, o fará se sentir leve e renascido. na saída da cela, Takabe agride um segurança deliberadamente e se vai.

Mais tarde, Takabe se encontra com Sakuma que pesquisou sobre o tal Mesmer e descobriu que se trata de um médico austríaco do século dezoito que foi pioneiro no estudo da hipnose numa época em que o ato era considerado pura charlatanice e até mesmo magia negra.

Tempos depois, Mamiya é levado por Takabe até uma junta médica para uma avaliação assistida e entre eles está o chefe da polícia, Fujiwara que tenta fazer o amnésico a falar qualquer coisa que ele possa se lembrar mas só o que faz é levar uma invertida.

Mamiya confidencia á Takabe que sente que o detetive é uma pessoa especial e o único que entende o que ele diz, Irado, Takabe dá um empurrão no desmemoriado.

Mais tardem Takabe volta para casa e não consegue ter se quer um segundo de diálogo com Fumie que demonstra estar piorando muito.

Quando a mulher pega no sono, Takabe pega uma faca visando mata-la, mas a cena corta na manhã seguinte com o detetive levando Fumie de trem até uma casa de repouso onde ficará nas mãos de seu terapeuta.

Takabe tenta levar seu dia normalmente mas está com a cabeça na lua, até receber uma ligação de Sakuma para que vá até sua casa com urgência. Lá, o psiquiatra mostra um VHS com uma gravação datada do sinal do século dezenove onde se promove uma sessão de terapia hipnótica de uma mulher trajando quimono típico.

A mulher em questão está sendo de uma crise de histeria e o hipnólogo misterioso a põe em transe fazendo um sinal de X com o dedo. O que se soube depois, é que a mulher foi presa em 1898 pelo assassinato do próprio filho no qual ela cravou um sinal de cruz na nuca.

Na cena seguinte, Sakuma examina o dormitório de Mamiya com um grupo de forenses e encontra um livro de heresias e depois adentra ao banheiro onde encontra o corpo do macaco drenado juntamente de Takabe.

Depois da investigação, Sakuma diz ao amigo detetive que Mamiya é um missionário que veio ao mundo para executar uma cerimônia. No entanto, depois o psiquiatra se recompõe e pede para Takabe não o levar a sério pelo que acabou de dizer.

Takabe percebe que o amigo está estranho e que ele riscou um X na parede de seu quarto ao qual ele tenta limpar insistentemente além de perguntar ao psicólogo se ele foi ver Mamiya, mas Sakuma nega e diz não se lembrar de nada.

Enquanto isso em sua cela, Mamiya tenta quebrar o aquecedor e horas depois, Takabe chega ao local onde o amnésico já havia fugido e matado um segurança no processo.

Em outro momento, Takabe é levado à casa de Sakuma onde descobre por um legista que o psiquiatra se suicidou com golpes de cano na cabeça.

Takabe procura por Mamiya no galpão do ferro velho mas ele é quem acaba sendo encontrado pelo desmemoriado que questiona por que o detetive o deixou fugir. Mamiya diz que o Takabe poderia saber todos os seus segredos, mas o detetive não dá tempo para mais diálogo e o alveja com um par de tiros.

O detetive pergunta se Mamiya se lembra de quem ele é recebendo uma confirmação e recebe a hipnose com a marca do X com o dedo, o que faz Takabe terminar de executar o algoz.

Depois, Takabe vai até um outro cômodo onde encontra um gramofone com uma gravação antiga de alguém que fala sobre a teoria da cura. Seria Mesmer?

A cena corta brevemente para a casa de repouso mostrando Fumie terrivelmente morta e volta para um café onde Takabe janta tranquilamente até receber uma ligação que ele atende como se estivesse anestesiado ou... como se tivesse alcançado um estado mental de plenitude e paz como Mamiya!

O que se dá a entender neste final é que Takabe se revelou como detentor de uma mente mais forte que a de Mamiya e que o suposto desmemoriado teria o hipnotizado antes de morrer passando seu dom para ele inconscientemente e que Takabe teria usado deste dom para matar Fumie, além do fato de que o detetive teria sim dado fuga para Mamiya de livre e espontânea vontade para terminar com tudo.

Enfim, o final é complexo e pede interpretações e esta é uma das mais aceitas no meio de quem assistiu o filme que como um todo é complicado e exige uma certa crença para que se possa entender minimamente o que está acontecendo.

O filme trás uma boa dose de violência mas o tempo todo é só aquele bom e velho terror psicológico que fica mais na mente fazendo o espectador pensar e ficar preso à trama esperando um desenvolvimento bacana. 

Os personagens principais são carismáticos e bem distintos ganhando a empatia do espectador e o mistério vai se desvendando gradativamente sem estragar a surpresa e nem entregar tudo de uma vez.

Em suma, o filme é bom para quem gosta de algo mais mental e principalmente para quem estuda ou quem é formado em psicologia, um prato cheio e um excelente instrumento para tese. Vai por mim.  

 

Trailer: