Voltando um pouco no tempo, eu resolvi trazer um polêmico terror nipônico do início dos anos 1970 que usou e abusou da violência gráfica para a época trazendo uma trama ambientada na época em que os imponentes samurais do império caminhavam livremente empunhando suas mortais katanas.
O filme em questão trás uma história cheia de ódio e de tragédias acerca de um samurai de renome que vendeu tudo o que tinha para viver uma vida fútil e boemia e acaba se apaixonando por uma gueixa que o usa para pagar uma dívida muito cara desencadeando uma ira incontrolável que pintará o Japão com litros de sangue até saciar a sua vingança.
O filme abre com um belo pôr do sol em cores e ao soar de um sino tocado em um templo por um sacerdote, as cores se vão iniciando a história em preto e branco conforme os créditos iniciais passam pela tela.
Passada a introdução, somos levados à província de Fukagawa no Japão da era dos samurais, um vilarejo tradicional por onde ao cair da noite, o samurai de renome Gengobei Satsuma corre desesperado chamando por um senhor chamado Oboshi que vive dentro de um grande templo, mas com o silêncio, o espadachim retoma seu caminho correndo invadindo uma casa mais humilde onde chama por uma tal Koman que também não responde.
Caminhando pelo breu do casebre, Gengobei encontra um braço decepado seguido de Koman e um grupo de pessoas mortas brutalmente e ao se virar, vislumbra o corpo de uma pessoa cuja metade de cima do corpo não vemos e que esta também esta morta tendo se enforcado deixando claro que era o assassino da trupe.
Tudo acaba se revelando um pesadelo de Gengobei que acorda ao lado de Koman que é uma bela e jovem gueixa. Após narrar seu sonho estranho, Gengobei gargalha para a amada aliviado.
Gengobei percebe uma tatuagem no braço de Koman e ao indagar sobre, a gueixa diz que a marca é um juramento de amor e fidelidade para o único homem para quem ela se entregará que é o próprio samurai com quem ela deseja se casar.
Surpreso com a declaração, Gengobei a toma e faz amor com ela sem a menor cerimônia.
Neste momento, chega um senhorzinho chamado Hachiemon que é vassalo de Gengobei e este vê o casal no maior romance através da tela da porta corrediça completamente envergonhado e este diz trazer notícias sobre o clã de seu mestre.
O velho percebe que o casebre está completamente vazio de mobília e Gengobei revela que ele vendeu tudo o que tinha para quitar suas dívidas com o governo. Não bastasse ainda descobre que seu mestre tirou a pureza da gueixa sem ao menos tê-la levado ao matrimônio e desconfiado da jovem ele a destrata e pede que ela saia do recinto.
Depois, Hachiemon fala sobre uma tal vingança que Gengobei e seus vassalos estavam planejando consumar e sua vergonha pelo mestre estar levando uma vida tão leviana e desonrosa.
Com o mal estar passado, o velho vassalo oferece à Gengobei cem moedas de Ryo que foram angariados por seus vassalos dando pouco o que eles tinham para que o mestre quite o que ele deve ao governo e que faz parte da tal vingança.
Uma hora depois, um homem chamado Sangoro que é mensageiro de um homem rico entrega para Gengobei uma carta de Koman implorando que o amado vá vê-la numa casa de chá onde ela está sob a guarda do tal rico que se chama Banemon.
Sangoro dá o ultimato ao espadachim pedindo que ele o acompanhe antes que Koman faça alguma besteira e mesmo contra vontade de Hachiemon, Gengobei acaba indo ao encontro a gueixa.
A cena corta para a tal casa de chá onde Gengobei e Sangoro ouvem o tal Banemon ofertando casamento à Koman para que ele perdoe uma dívida muito grande que ela contraiu com ele mas a gueixa o rejeita perante seus vassalos Torazo, Inosuke, Cohachi e a gueixa Kikumo.
Torazo diz que descobriu que Koman está amasiada com um samurai vagabundo chamado Gengobei que outrora já teve um nome de respeito.
Humilhado, Gengobei invade a casa de chá e oferta seus cem Ryo para pagar a dívida de Koman e assim liberta-la do compromisso de casamento e a leva consigo decepcionando Hachiemon.
Este último evento no entanto só aconteceu na mente de Gangobei e na realidade, o samurai rejeita Koman fingindo que não tem nenhuma grana e é ridicularizado pelos vassalos de Banemon e a gueixa entra em desespero por agora ela irá pertencer ao ricaço contra a sua vontade.
Koman tira sua própria vida furando seu pescoço com a agulha de prender o cabelo, porém este breve evento também não ocorre de verdade, pois antes que a gueixa atentasse contra si mesma, Gengobei a impede e a aconselha a viver intensamente.
Gengobei resolve abrir mão de seus cem Ryo para pagar a dívida de Koman e resgatar sua honra até que Hachiemon se opõe ao sacrifício de seu mestre mas nada pode fazer.
Com tudo resolvido, Gengobei leva Koman consigo mas Sangoro acaba com sua alegria dizendo que a gueixa não pode se casar com o espadachim pois ela já é uma mulher casada e que o marido dela é o próprio mensageiro que agiu em conluio com a mulher e a trupe de Banemon para enganar o samurai e ficar com seu dinheiro.
Em fúria, Gengobei vai embora com Hachiemon e deixa os traidores conviverem com sua desonra.
Mais tarde, Gengobei não consegue tirar Koman da cabeça enquanto a gueixa reprime seus sentimentos na frente de Sangoro, Banemon e seus vassalos enquanto o samurai sonha acordado com sua vingança.
Na hora de ir para cama, Koman planeja pegar seu filho com os pais adotivos dele e viajar para longe com o marido para viver uma vida tranquila no campo.
No meio da madrugada, Gengobei invade os aposentos de Banemon e Kikumo e os mata a golpes de espada e Koman e Sangoro veem tudo escondidos. Depois, Gengobei assassina friamente Cohachi com um único golpe se aproveitando da bebedeira do vassalo seguido de Inosuke que tem sua mão decepada.
Torazo assiste a tudo tremulo enquanto Koman e Sangoro fogem. Por fim, Gengobei assassina o último vassalo com um golpe lento porém eficaz.
Vários dias depois, Koman, Sangoro e seu bebê seguem viagem para outra cidade onde o pai do traidor, Tokuemon que é um sacerdote protetor de um templo os recebe e os acomoda em um casebre próximo após receber cem Ryo de Sangoro com a condição que o velho retire sua ordem de deserda-lo dada há dez anos atrás por motivo de desonra.
Neste meio tempo, Gengobei vaga pelo vilarejo se passando por um camponês uma vez que agora ele é um foragido da justiça acusado dos assassinatos de Banemon e seus vassalos.
Rapidamente, Gengobei encontra Koman e Sangoro e finge consternação oferecendo à eles uma garrafa de saquê batizado com veneno e diz já ter esquecido o ressentimento.
Sem fazer cerimônia, o casal toma o saquê e morre rapidamente pelo envenenamento, mas a cena volta alguns segundos e antes que os dois pusessem a bebida na boca, Gengobei pede à Koman que cante e toque seu alaúde shamisen para ele tal como fazia antes.
Conforme a gueixa toca e canta, o samurai se lembra de quando ela lhe jurou amor e se tornou sua mulher e nisso, chega pelo lado e fora, o irmão de Koman que observa tudo de longe.
Enquanto isso, Hachiemon segue um grupo de espadachins da milicia guiados pelo irmão de Koman até a casa da mesma entregando o espadachim foragido por algumas moedas.
Gengobei ouve a aglomeração se formar do lado de fora do casebre e ao sair para verificar é interrogado e nega ser o foragido de Fukagawa mesmo as autoridades dizendo que têm o testemunho de Sangoro. Este por sua vez, por medo nega sua declaração.
Hachiemon intervém à prisão de seu senhor alegando ser o verdadeiro assassino e prova sua palavra mostrando uma das agulhas de Koman como a outra que foi encontrada no local do crime.
Antes de ser levado preso, Hachiemon implora para que Gengobei que esqueça Koman e volte a trilhar o caminho da honra para que ele possa morrer em paz, pois sabe que pegará a pena máxima.
Depois que o vassalo é levado, Koman e Hachiemon pedem perdão de joelhos pelo sacrifício de Hachiemon à Gengobei que resolve deixa-los viver com a culpa além da desonra.
Assim que Gengobei se vai, Sangoro joga sal na entrada do casebre e recita um mantra para afastar os demônios.
Passado tudo, o casal se junta ao irmão de Koman para beber e a gueixa encontra uma planta baixa da mansão de uma família nobre chamada Kono escondido num compartimento secreto. O irmão de Koman revela ser vassalo de Kono e acaba caçando briga com Sangoro até que o jovem começa a verter sangue pela boca revelando que o saquê está envenenado.
Em pânico, Sangoro resolve terminar com a agonia do cunhado o enforcando com uma corda por trás.
Envergonhado pelo que acabou de fazer, Sangoro tenta cometer Harakiri (suicídio com uma faca um punhal alojado em seu peito num ponto vital específico) mas o choro do bebê do casal o faz reagir e desistir.
Koman entrega a planta da mansão Kono para que o marido leve para um lugar seguro e fica tomando conta do bebê.
Do outro lado, Gengobei vaga tendo visões enquanto Hachiemon é executado com um golpe de lança e passa a ver os fantasmas de Banemon e os outros chamando por seu nome.
Em paralelo, Koman arrasta o corpo do irmão até um poço onde o desova e ao voltar para casa dá de cara com Gengobei perguntando por Sangoro e descobre a existência do bebê dela.
Em fúria, o samurai ameaça matar a ex amante e exige saber o paradeiro de Sangoro. Com a negativa da mulher, Gengobei lhe faz um corte na garganta seguido de um golpe em sua espinha. Depois, ele fura o braço da gueixa bem na tatuagem de amor eterno que ela fez na realidade para o marido e faltou com seu juramento.
Koman em agonia implora pela vida do filho e Gengobe coloca sua espada nas mãos da mulher a fazendo matar o bebê empalado instantaneamente.
Em prantos, Koman chama Gengobei de demônio e ele diz que ela e seu marido o transformaram num demônio deferindo o golpe final.
A cena corta e ouvimos Tokuemon, o pai de Sangoro tocando o sino do templo e depois, ele desce pelas escadas vendo alguém ir embora da casa do filho e o alerta.
Assustado, Sangoro se esconde dentro de um tambor de saquê armado com uma faca enquanto Gengobei enche a cara ao lado da cabeça decapitada de Koman.
Pressentindo a chegada e alguém, Gengobei esconde a cabeça da gueixa num lenço e é Tokuemon que sem saber quem o foragido é entrega à ele a planta da mansão Kono e os cem Ryô que o filho havia pago antes.
Gengobei se nega a receber qualquer dinheiro e se revela como o assassino foragido de Fukagawa e o velho revela ser o pai de Sangoro que sai do tambor todo descabelado numa cena icônica coreografada em três tomadas.
Tokuemon implora pela vida do filho e sua nora e Gengobei revela que por Koman já não há nada que ele possa fazer revelando a cabeça da mesma ao abrir o lenço e ele completa que também assassinou o bebê.
Enlouquecido pela dor, Sangoro comete Harakiri e em agonia revela ter matado seu cunhado. Depois, nos braços do pai, ele implora para ver a cabeça da amada pela última vez e a abraça cheio de dor. Tomado pela compaixão, Gengobei desfere o golpe e misericórdia em Sangoro.
Em silêncio, Gengobei desce as escadas do templo vagando pela noite como um ser vazio por dentro até parar na frente de um mastro que ele encara de frente.
O filme fecha com uma narração dizendo que os vassalos de Gengobei executaram a vingança em seu nome...
Fica explícito que Gengobei tirou sua vida se enforcando no final, pois se vocês bem se lembram, naquele sonho do início do filme que era na verdade uma premonição, o samurai viu um corpo suspenso por uma forca mas a gente não vê quem era e agora fica claro que era o próprio que após consumar sua vingança tornando-se um demônio, encontrou a redenção tirando sua própria vida para acabar de uma vez com o ódio e o ressentimento.
O filme tem uma cinematografia belíssima em preto e branco e a atmosfera é densa com o fato da história se passar cem por cento do tempo à noite dando uma impressão de que os personagens vivem eternamente sob a escuridão de seus corações pecadores.
O ritmo da narrativa é bem ok e a coisa começa a ficar boa no segundo ato, quando começa a vingança e o filme nos brinda com um senhor banho de sangue e ótimos efeitos práticos como a cena da cabeça de Koman decapitada que para a época está bem montada.
A sobreposição das cenas da execução do Hachiemon com a alucinação dos espíritos de Banemon e dos outros assombrando Gengobei é arte pura assim como todo resto do filme e as atuações então, nem e falam, são um show a parte e trazem uma camada a mais para a trama valorizando todo o conjunto da obra.
Não tem mais muito o que dizer, o filme é ótimo, tem uma ambientação e caracterização ótima, a escuridão constante é a cereja do bolo e jornada do protagonista é muito bem escrita e profunda mostrando a sua degradação psicológica até se transformar num demônio como diz o título do filme.
Trailer:

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