E hoje nós vamos com um clássico absoluto dos anos 1960 e sua contraparte dos anos 1990 que trás à tona tudo o que define um clássico: uma boa direção e aqui estamos falando de uma obra de Martin Scorsese (no caso o remake), uma trama de primeira cheio de suspense e mistério, um elenco cheio de química e muito medo como o título sugere.
A trama trás um advogado stalkeado por um ex cliente que defendeu há dezesseis anos e que saiu recentemente da prisão em busca de vingança.
Mas a vingança que o algoz quer não se trata de apenas eliminar seu antigo advogado mas sim de atingir sua família a ponto de enlouquece-lo, destruir sua moral judicial, inverter os valores o transformando no vilão enquanto ele se pinta de vítima até não sobrar mais nenhuma opção a não ser burlar a lei.
Começa então um jogo de gato e rato pela sobrevivência custe o que custar. E como é de costume nestas resenhas duplas vou destrinchar primeiramente o remake da obra e depois colocar as diferenças com o original numa balança de forma detalhada e justa. Então lá vai...
Tudo começa com a libertação de Max Cady da prisão após uma condenação de quatorze anos.
Depois, conhecemos a família do advogado Sam Bowden formado pela sua mulher Leigh e sua filha de dezesseis anos Danielle se preparando para uma ida ao cinema.
Ao chegarem ao estabelecimento, mal conseguem ver à comédia que tanto esperavam, os Bowden são importunados por um sujeito que ri alto e fuma charuto sem o menor pudor na fila da frente e este é ninguém menos que Max Cady.
Sem conseguir acompanhar o filme, a família de Sam deixa o cinema e na cena seguinte em um outro momento, Sam joga squash com sua secretária Lori Davis e na saída acaba ficando cara a cara com Max que o lembra de quem ele é.
Na hora de dormir, Sam sugere à Leigh tirar umas férias e o papo termina em coito.
Após o ato, Leigh se levanta para fumar e ao olhar uma estranha queima de fogos fora de época percebe Max sentado sobre a mureta de seu quintal. Rapidamente, Leigh alerta Sam pedindo que intimide o invasor, mas Max já havia dado o vazante neste momento.
Passado o susto, Leigh pergunta para Sam quem era o estranho e o advogado dá poucas informações para que não se crie um alarde.
Na manhã seguinte, Sam vai até o escritório para falar com seu amigo Tom Broadbent sobre Max que agora sabemos que foi cliente de Sam no passado quando o recém liberto foi preso acusado de violentar uma adolescente.
Na saída, Sam reencontra-se com Max e diz ter feito tudo o que pode na época do julgamento para inocenta-lo e oferece dinheiro para que o stalker pare de importunar sua família.
Pouco depois, Sam recebe uma ligação de Leigh e vai diretamente para casa onde descobre que o cachorro da família desapareceu e fora encontrado misteriosamente envenenado.
Max é detido para uma acareação pela suspeita do envenenamento do cachorro dos Bowden, mas a falta de provas sólidas faz com que o ex condenado seja solto.
Dias depois, os Bowden assistem a parada de quatro de julho e Sam vê Max no meio da multidão o agredindo e ficando mal na frente de todos.
Mais tarde, Max conhece Lori num bar e bebe com ela fazendo amizade rapidamente e muito mais rápido a leva para a cama. Lá, Max a algema para saciar um fetiche, mas acaba na verdade arrancando um naco de sua bochecha e depois agride à secretária violentamente.
Horas depois, Sam recebe uma ligação do escritório acerca de um caso de estupro e agressão. Ao fazer o reconhecimento da vítima, Sam descobre que é Lori que está num estado deplorável no hospital.
Sam aconselha a secretária a fazer uma denuncia formal contra o agressor mas ela se nega a se sujar ainda mais, pois ela é assumidamente uma promíscua que aceitou muito fácil e rapidamente se deitar com um estranho.
Preocupado com a segurança da família, Sam intensifica a segurança interna da casa e contrata o detetive Claude Kersek para seguir os passos de Max.
Um tempo depois, Leigh flagra Sam ligando para Lori e automaticamente desconfia de infidelidade o agredindo. O casal lava roupa suja sobre sua relação fracassada e Sam acaba indo dormir no sofá da sala.
No dia seguinte, Claude encontra Max discretamente numa biblioteca e deixa claro que sabe quem ele é e o trata de forma ríspida e ameaçadora.
Pouco depois, Max aparece na frente da casa dos Bowden e entrega para Leigh a coleira de seu cachorro morto e a mulher logo deduz quem ele é e o intimida na frente de Danielle que acabara de chegar levantando o interesse do bandido na menina.
Claude procura Sam para dizer que intimidou Max e sugere dar um cala boca definitivo nele mas o advogado se nega a passar por cima da lei que ele defende.
Max consegue o número de Danielle e liga para ela se passando por professor de teatro e marca uma aula particular no mesmo local ganhando rapidamente a confiança da jovem cheia de hormônios.
Na manhã seguinte, Leigh leva Danielle para a aula no teatro e a menina segue os bastidores até chegar ao auditório onde encontra Max fumando maconha em um cenário no palco.
Conversa vai e sedução vem e Danielle descobre rapidamente que o tal suposto professor é na verdade o stalker da família e o crápula mete um papo sobre pecados e salvação divina à menina que inicialmente se mostra envolvida em desejos alheios à sua idade, mas ela recua em prantos.
Sam toma conhecimento do ocorrido, estapeia a filha e depois notifica Claude para que ele tome medidas cabíveis contra Max mandando um sonoro foda-se para a lei.
Na cena seguinte, Sam procura Max num bar e o ameaça abertamente.
De volta à casa, Sam tranca toda a residência e proíbe Danielle de sair e a menina manipulada pelos desejos tenta minimizar o que quase aconteceu entre ela e seu bandido de estimação.
Com a chegada da noite, Max é surrado por três capangas pagos por Claude e Sam observa tudo escondido, mas o crápula consegue contra atacar desarmando cada um e os surrando até faze-los fugir.
Max percebe que Sam está escondido e ameaça o advogado se comparando à Deus.
Na manhã seguinte, Sam procura por um advogado criminal de renome chamado Lee Heller para representa-lo contra Max mas o profissional nega dizendo que o crápula o contratou antes.
Na cena seguinte, Sam está no banco dos réus acusado pela agressão sofrida por Max que é representado por Heller e este estipula uma medida restritiva entre Sam e Max além de pedir a cassação da licença de advogado do réu por abuso de poder.
Depois de sair sobre custodia, Sam pede à Claude que lhe consiga uma arma como última medida de proteção uma vez que a lei o abandonou e arma uma viagem com a família no meio da noite sem saber que Max os está seguindo até o aeroporto.
Max consegue informações sobre ida e volta dos Bowden no guichê e quando ocorre, a família regressa com Claude como segurança particular e este prega as portas principais da residência além de implantar uma armadilha no estilo Esqueceram de mim enquanto esperam que Max venha.
O dia se passa tranquilamente e nada de Max. Tendo passando mais um dia inteiro, a armadilha finalmente se mexe e Claude se mobiliza ao ver uma das janelas batendo, porém descobre que é apenas o vento.
A neurose faz Sam ver Max em seu quarto mas ele rapidamente se recompõe e alerta Leigh instintivamente de que o crápula está dentro da residência.
Enquanto isso, Claude vai até a cozinha tomar café com a criada Graciela, porém descobre que aquela é na verdade Max disfarçado. Max o esgana com um cabo e consegue fazer com que Claude atire contra si mesmo.
Leigh vê Max fugindo pelo jardim ao mesmo tempo que Sam encontra os corpos de Claude e de Graciela. Sam surta e pega o revólver do falecido ameaçando em plenos pulmões matar Max. Logo depois, o advogado faz as malas e foge de carro com a família sem perceber que Max os está seguindo agarrado as ferragens do veículo.
Depois de um tempo dirigindo, a família chega à um local chamado Cape Fear (Cabo do medo) que é um lago no meio do nada e Sam segue a viagem em um navio e zarpam até a noite quando a embarcação é amarrada à margem.
Cai uma ventania seguida por um toró e Sam resolve sair para dar uma olhada no convés. Ao dar poucos passos, o advogado é agarrado pelo pescoço e içado por Max que o nocauteia e corta a corta que segura o barco.
Logo depois, Max invade a cabine e intimida Danielle que joga água quente de uma panela no crápula, porém ele resiste e acende uma banana de dinamite apenas para dar um susto.
Max prende Danielle no porão do barco e tenta abusar de Leigh enquanto a prisioneira tenta encontrar algo para ajuda-la a escapar, e só acha uma garrafa de álcool.
Leigh tenta aproveitar a investida de Max para tirar seu revólver mas ele percebe e a algema. Logo depois, ele puxa Sam do lado de fora amarrado. Na sequencia, ele tira Danielle do porão e Leigh tenta chantagear o bandido emocionalmente.
Max se sentindo vitorioso acende um charuto e Danielle aproveita para jogar álcool fazendo o bandido pegar fogo. No desespero, Max se joga no lago mas consegue se agarrar à corda e volta à bordo rendendo geral.
Enlouquecido, Max revive o julgamento que o condenou atuando como ele mesmo e como seu advogado de defesa.
Sam revela que a vítima de Max era uma vadia e que omitiu este fato para evitar a liberdade do cliente.
Max julga Sam culpado por trair seu juramento profissional e ordena à Danielle e Leigh que retirem suas roupas para que morram como animais.
A água revolta balança o barco fazendo Max cair e Sam resgata mulher e filha pedindo que elas pulem da embarcação.
Com tudo feito, Max emerge e agarra Sam iniciando uma luta corpo a corpo, mas o advogado consegue algemar o bandido pelo tornozelo e o mesmo perde sua arma com um impacto que o barco sofre fazendo com que a embarcação comece a se despedaçar.
Sam é jogado até a margem de uma praia e acerta Max com uma pedra sendo acertado de volta. Por fim, Sam agarra uma pedra bem grande e arrebenta o pedaço do barco onde Max está preso. O crápula começa a afundar e canta hino de louvor sumindo nas profundezas após dar uma última olhada em seu arque inimigo.
Sentindo-se sujo pelo que fez, Sam lava o sangue de suas mãos.
Leigh e Danielle que chegaram à margem desmaiadas acordam e encontram Sam emocionadas.
O filme se encerra com uma narração de Danielle que diz que ninguém voltou a mencionar o ocorrido nestes últimos dias por medo e que ela escolheu viver intensamente. A cena dá um close nos olhos da garota que parece agora ser uma pessoa totalmente destemida e livre de qualquer sentimento de culpa...
O título de clássico não é para menos, o filme conseguiu trazer uma atmosfera de suspense e neurose bacana mesmo com o tempo extrapolado de mais de duas horas que poderiam ter feito do enredo maçante e chato, mas não foi o caso.
A direção de Scorsese é cirúrgica como sempre, o roteiro muito bem escrito e as atuações então nem se fala; Nick Nolte e Robert De Niro como total contrapartes é sensacional além da química entre os astros consagrados de Hollywood.
O elenco ainda conta com Juliette Lewis em início de carreira e a consagrada Jessica Lange fechando o elenco principal e completando a química perfeita.
Ainda tivemos as participações estelares dos lendários Gregory Peck (de A Profecia de 1976) e Robert Mitchum que no original de 1962 interpretaram Sam e Max trazendo atuações primorosas mesmo em poucos minutos de tela.
A trilha sonora é fantástica, muito inspirada na versão original e os efeitos especiais envolvendo jogadas de câmera, close nos olhos e uma edição de cores vibrantes se entrelaçando trás uma sensação de Hitchcock ao filme fazendo com que esta adaptação seja equiparável a original que também é um clássico.
O filme é tão clássico que dentro da cultura pop gerou uma série de influências em séries e desenhos animados que sempre homenageia alguma cena icônica como a de Max importunando no cinema. É o tipo de cena que você vê em outros lugares e logo aponta o dedo de tão boa a sacada.
Agora às diferenças com o original nós temos bem poucas, mas que foram suficientes para revitalizar o filme e trazer coisas novas para a geração noventista.
Para começar nós temos alguns nomes alterados como Leigh que no original se chamada Peggy e Danielle se chama Nancy e é bem mais jovem que sua versão em cores.
Já na parte narrativa começamos pelo fato que Max Cady debuta na tela já livre da cadeia fazendo sua primeira aparição para seu desafeto enquanto que no remake temos toda aquela preparação de Robert de Niro mostrando o quão perigoso o vilão é saindo da cadeia depois da malhação.
O filme original não tem a clássica cena do cinema e nem mesmo a da queima de fogos no quintal, enquanto a narrativa é mais direta e enxuta, afinal o clássico mal chega à uma hora e quarenta enquanto o remake passa das duas horas de duração.
Por um bom tempo as tramas permanecem iguais e pouca coisa muda. Uma delas é que enquanto no remake o cachorro de Sam foi envenenado fora de tela e ele precisou ser contatado por Max, no original o pai de família está na casa no momento e é ele quem encontra o cachorro desfalecido o levando para o veterinário com à família por segurança.
Mais a frente, temos o ataque de Max à amante Lori que no original se chama Diane Taylor e ao contrário do remake, seu abuso corre fora de tela e só vemos as consequências que além de física também fica o trauma que a faz se negar a denunciar o agressor descrente que a justiça irá mantê-lo afastado, sendo que no filme é dito que o máximo que Max pode pegar são seis meses de cadeia e depois a jovem ficará à Deus dará.
O Max original não conhece Nancy / Danielle na escola se passando por professor, esta cena não existe em 1962. O primeiro contato entre os dois ocorre no píer enquanto a garota dá polimento à lancha do pai e o mal caráter à observa de longe e encontra Sam mencionando que a garota está ficando gostosa como Peggy / Leigh e é aí que temos à agressão que o mal caráter sofre em público e sem reagir apenas para tornar Sam mal falado.
Na cena em que Sam paga pelo espancamento de Max, o advogado no original não está escondido para ver como tudo foi mas sim está em casa com a família e Max depois de levar a melhor liga diretamente para Peggy para se vangloriar que o plano do advogado não deu certo.
Já chegando ao ato final, tudo é bem mais rápido: Não tem tempestade e entre e sai de Max dentro do barco da família de Sam, o que tem é uma espreita e uma luta corpo a corpo contra o advogado, uma tentativa de afogamento, um apedrejamento e por fim Sam o sobrepuja, rouba seu revólver e anuncia que irá voltar a confiar na justiça o levando preso por muitos anos, enquanto no remake Max morre de forma icônica.
Na cena final a família Bowden simplesmente é resgatada e vai embora sem nenhuma narração final.
Enfim, ambos os filmes compartilham de uma narrativa quase que integralmente igual com um pouco de barriga, mas segue a essência com os enquadramentos de câmera, a edição de imagem e sobretudo a trilha sonora clássica de Bernard Herrmann juntamente da orquestra da Universal Pictures Studio.
Trailer (Versão de 1962):
Trailer (Versão de 1991):

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